Aprendizado Contínuo

Em um mundo de respostas rápidas, ainda vale a pena ler?

Para quem está escolhendo uma profissão, buscando o primeiro emprego e tentando tomar decisões melhores, a leitura continua sendo uma forma poderosa de ampliar repertório, compreender informações, argumentar e enxergar possibilidades.

Você encontra uma vaga e não sabe se “experiência desejável” significa que pode se candidatar sem nunca ter trabalhado. Pesquisa uma profissão e encontra um vídeo dizendo que ela vai desaparecer por causa da inteligência artificial. Na entrevista, perguntam por que você escolheu aquela área — e responder apenas “porque eu gosto” parece pouco.

São situações muito comuns para quem está tentando decidir o que fazer da vida e, muitas vezes ao mesmo tempo, procurando a primeira oportunidade profissional. E todas têm algo em comum: não basta receber informação. É preciso compreender o que está diante de você, comparar possibilidades, refletir, tomar decisões e conseguir explicar por que pensa daquela maneira.

É por isso que, mesmo em um mundo de vídeos, redes sociais, inteligência artificial e respostas em segundos, ainda precisamos falar sobre leitura.

Para entender melhor como escolha profissional e busca pelo primeiro emprego fazem parte de uma mesma caminhada, veja também A Jornada do Estudante: Da Escolha da Carreira ao Primeiro Emprego. A Jornada do Estudante: Da Escolha da Carreira ao Primeiro Emprego

📚 Por que deixamos a leitura perder espaço justamente quando mais precisamos de repertório?

A Bienal Internacional do Livro de São Paulo terminou sua edição de 2026 com 760 mil visitantes, o maior público de sua história. Cinco dias tiveram ingressos esgotados e mais de 800 autores participaram do evento.

Esse número ajuda a desmontar uma ideia repetida com frequência: a de que ninguém mais se interessa por livros.

Mas ele não conta a história inteira.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou que, pela primeira vez na série histórica, os não leitores se tornaram maioria. 53% da população pesquisada não havia lido nem mesmo parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento, e o Brasil perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores em quatro anos.

Existe, porém, um dado ainda mais próximo da realidade dos Clickers: entre adolescentes de 14 a 17 anos, 62% são considerados leitores. Na faixa dos 18 aos 24 anos, o percentual cai para 53%.

E é justamente nessa passagem que a vida começa a ficar mais cheia de decisões. É a fase de terminar o Ensino Médio, pensar em faculdade ou curso técnico, escolher uma profissão, procurar o primeiro emprego, ajudar em casa e assumir responsabilidades que antes não existiam.

Não podemos afirmar que essas mudanças, sozinhas, expliquem a queda do hábito de leitura. Mas a coincidência merece atenção.

É justamente quando começamos a escolher uma profissão, procurar oportunidades e tomar decisões capazes de mudar nossa trajetória que a leitura — uma das formas de ampliar nossas referências — começa a perder espaço.

Então vale a pergunta:

Por que deixamos a leitura perder espaço justamente quando mais precisamos de repertório para decidir?

Talvez a resposta não seja simplesmente “precisamos ler mais”. Talvez seja entender para que a leitura pode servir nessa fase da vida.

A Click Educ8 já discutiu anteriormente a relação entre leitura, carreira e desenvolvimento pessoal. Este novo debate parte de outro ponto: o que muda quando precisamos usar aquilo que lemos para escolher, comparar, argumentar e tomar decisões? Como a Leitura Pode Transformar Sua Carreira e Sua Vida

🎯 Escolher uma carreira também é ampliar o mundo que você conhece

Quando chega a hora de escolher uma carreira, normalmente começamos pelas profissões que já conhecemos: aquelas que aparecem na família, na escola, entre amigos ou nas redes sociais.

Isso faz sentido. Mas existe um limite: como considerar uma possibilidade profissional cuja existência você nem conhece?

Talvez Administração, Direito, Enfermagem ou Engenharia já façam parte do seu mapa. Mas e logística, comércio exterior, análise de dados, segurança da informação, produção cultural, energias renováveis, automação, gestão ambiental ou saúde digital?

A questão não é dizer que uma dessas áreas é melhor para você. É mostrar que, quanto mais você conhece sobre profissões, setores, problemas e trajetórias diferentes, maior fica o seu mapa de possibilidades.

Uma reportagem, a entrevista de um profissional, uma biografia, uma matéria sobre determinado setor ou uma pesquisa sobre como uma profissão realmente funciona podem apresentar caminhos que antes nem apareciam no seu radar.

Talvez você olhe para as profissões que conhece e pense: “nenhuma delas combina comigo”. Mas e se o problema for simplesmente que você ainda conhece poucas possibilidades?

Você não precisa de mais pressão para escolher. Precisa de mais referências para pensar.

💼 O primeiro emprego começa antes da entrevista

A busca pelo primeiro emprego já exige leitura antes mesmo de você conversar com alguém da empresa. Uma vaga informa que experiência anterior é “desejável”, outra pede disponibilidade de horário e uma terceira apresenta atividades cujo significado talvez não esteja tão claro.

Se você passa rapidamente pelo anúncio sem compreendê-lo, pode desistir de uma oportunidade que fazia sentido — ou se candidatar sem entender aquilo que a empresa realmente procura.

Pesquisar a empresa e entender o que ela faz, em que setor atua e o que espera daquela vaga também ajuda você a chegar à entrevista com muito mais elementos para conversar.

Imagine que o recrutador pergunte: “Por que você quer trabalhar aqui?”

Responder “porque preciso de uma oportunidade” pode ser absolutamente verdadeiro. Mas, se a conversa continuar, provavelmente você precisará dizer mais. Se pesquisou a empresa, compreendeu a vaga e refletiu sobre o que pode aprender naquela oportunidade, já possui mais elementos para construir sua resposta.

O mesmo acontece quando perguntam: “Por que você escolheu essa área?”

Quem pesquisou a profissão, conheceu diferentes trajetórias e entendeu melhor o trabalho consegue explicar suas razões com mais clareza.

A questão não é decorar uma resposta bonita nem tentar falar difícil.

É ter informação suficiente para compreender a oportunidade e referências suficientes para conversar sobre ela.

Se você está justamente nessa fase, vale aprofundar a preparação no conteúdo O que fazer para encontrar meu emprego? O que fazer para encontrar meu emprego?

🧠 Encontrar uma opinião é fácil. Construir a sua é outra história

Imagine que você esteja tentando decidir se vale a pena fazer faculdade.

Em poucos minutos pode encontrar alguém dizendo que “faculdade não serve mais para nada” e outra pessoa afirmando que “sem faculdade você não terá uma boa carreira”.

Se você simplesmente aceita uma dessas frases, pode acabar tomando uma decisão importante com base na certeza de outra pessoa.

É aí que a leitura e o pensamento crítico começam a andar juntos.

Quem está dizendo isso? Com base em quê? Essa afirmação vale para todas as profissões? Essa realidade se parece mesmo com a sua?

As mesmas perguntas servem quando alguém afirma que determinada profissão “vai acabar”, quando um curso promete emprego rápido ou quando um vídeo apresenta uma única trajetória profissional como se fosse a regra.

Pensamento crítico não é desconfiar de tudo. É aprender a perguntar antes de concluir.

E posicionamento não significa ter uma opinião pronta sobre qualquer assunto. É conseguir dizer:

“Eu penso assim por estas razões.”

Construir uma posição exige conhecer outras perspectivas, comparar informações e estar disposto até a mudar de opinião quando encontramos argumentos melhores.

Essa capacidade aparece na escolha da carreira, numa entrevista, numa dinâmica de grupo e em muitas outras decisões da vida.

🤖 Ter a resposta não significa ter aprendido

Você pede uma explicação para uma ferramenta de inteligência artificial, recebe a resposta em segundos e segue em frente. Mas, se alguém pedir que você explique aquilo sem consultar a ferramenta novamente, você consegue?

Essa diferença entre receber uma resposta e realmente compreender um assunto ficou ainda mais importante.

O PISA é uma das principais avaliações internacionais de aprendizagem e mede o que estudantes de 15 anos conseguem fazer com conhecimentos de leitura, matemática e ciências. Em 2025, cerca de 49% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência em leitura, considerado o patamar mínimo analisado pela avaliação.

Isso não significa que metade dos jovens brasileiros “não saiba ler”. O alerta é outro: para muitos estudantes, ainda é difícil compreender um texto, identificar o que realmente importa, relacionar ideias e refletir sobre aquilo que foi lido.

Ao mesmo tempo, as ferramentas de aprendizagem estão mudando rapidamente. No Brasil, 48% dos estudantes de 15 anos disseram utilizar chatbots de IA pelo menos uma vez por semana para ajudá-los a aprender. Cerca de 31% disseram utilizar IA para resumir um texto que precisavam ler.

Isso não transforma a IA em inimiga da leitura. Muito pelo contrário.

Uma IA pode explicar um trecho difícil, um vídeo pode apresentar o mesmo conceito de outra maneira, um mapa mental pode ajudar a organizar ideias e um resumo pode servir para revisar aquilo que você estudou.

Mas compare duas formas de usar a mesma ferramenta:

“Faça um resumo porque eu não quero ler.”

e

“Eu li, mas não entendi este argumento. Pode explicar de outra forma?”

Ou ainda:

“Foi isso que eu entendi. O que posso estar deixando de perceber?”

A ferramenta é a mesma. O processo de aprendizagem não.

No segundo caso, você continua participando: lê, tenta compreender, identifica uma dificuldade, busca ajuda, compara a resposta e volta ao conteúdo.

IA, vídeos, mapas mentais, resumos, anotações e outras metodologias podem tornar o aprendizado mais acessível e eficiente. Mas são meios dentro de um processo maior.

Antes de considerar um assunto aprendido, experimente um teste simples:

Consigo explicar isso com minhas próprias palavras?

Se não consegue, talvez você tenha encontrado a resposta — mas ainda não tenha aprendido.

🚀 Desafio Click Educ8: 30 dias para ampliar seu repertório

Agora vem a parte mais importante: não queremos que você termine este texto concordando que leitura é importante e amanhã continue tudo igual.

Por isso, temos um desafio para os próximos 30 dias.

Esqueça a quantidade de livros. O objetivo é perceber o que acontece quando você abre espaço para novas ideias, histórias, referências e possibilidades.

🔎 Semana 1 — Leia por curiosidade

Escolha um assunto que realmente desperte seu interesse. Pode ser futebol, música, tecnologia, história, moda, ciência, romance, mangá ou qualquer outro tema.

Leia alguma coisa sobre ele e, no final da semana, tente responder:

O que descobri que não sabia?

Não precisa começar com um livro de 400 páginas. Comece pela curiosidade.

🧭 Semana 2 — Explore uma profissão

Escolha uma profissão que você considera seguir — ou uma que conhece muito pouco.

Procure uma boa reportagem, uma entrevista com alguém que realmente trabalha na área e uma vaga relacionada àquela profissão.

Depois reflita: o que esse profissional realmente faz? Que problemas resolve? Que conhecimentos e habilidades precisa desenvolver? O que descobri sobre essa profissão que não aparecia na minha ideia inicial sobre ela?

E, principalmente: consigo me imaginar trabalhando com esse tipo de problema?

🔄 Semana 3 — Procure uma visão diferente da sua

Escolha um assunto sobre o qual você já tenha uma opinião e procure uma fonte confiável que apresente outro ponto de vista.

O objetivo não é mudar de opinião por obrigação. É conseguir compreender um argumento diferente.

Pergunte a si mesmo:

Consigo explicar essa posição mesmo sem concordar com ela? Depois de conhecer outra visão, continuo pensando da mesma forma? Por quê?

💬 Semana 4 — Construa sua posição

Escolha algo que você leu durante o mês e tente explicar para alguém — ou escrever para você mesmo:

“Depois de ler, pesquisar e pensar sobre isso, minha posição hoje é…”

Depois complete a frase.

Se quiser usar IA, vídeos, resumos ou outras ferramentas durante o desafio, use. Peça explicações, compare argumentos, faça perguntas e teste aquilo que entendeu.

Mas faça uma coisa antes de procurar a próxima resposta pronta:

pense primeiro.

🌎 Quanto mais referências, mais possibilidades

A leitura pode ajudar você a descobrir profissões que não conhecia, compreender melhor uma oportunidade, chegar mais preparado a uma entrevista, argumentar com mais clareza e tomar decisões com mais consciência. Pode também simplesmente ampliar seu mundo, apresentar outras histórias, outras experiências e outras formas de enxergar a vida.

Nem toda leitura precisa melhorar seu currículo para melhorar você.

Aquilo que você lê, questiona, compreende e transforma em aprendizado começa a fazer parte de quem você é. Vai com você para uma entrevista, para uma escolha profissional, para uma conversa difícil, para uma decisão importante e até para oportunidades que ainda nem apareceram.

Talvez você ainda não saiba exatamente qual carreira seguir. Talvez esteja procurando o primeiro emprego e tentando encontrar seu lugar. Você não precisa ter todas as respostas agora.

O importante é não parar de ampliar as perguntas, as referências e as possibilidades.

Em um mundo que entrega respostas cada vez mais rápido, continue desenvolvendo algo que nenhuma ferramenta pode fazer completamente por você: compreender, refletir, escolher e construir sua própria visão de mundo.

Leia uma história. Pesquise uma profissão. Conheça uma trajetória diferente da sua. Questione uma certeza. Use a tecnologia para aprender melhor. Converse sobre aquilo que descobriu.

Porque talvez a leitura não entregue a resposta sobre qual caminho você deve seguir.

Mas pode ajudar você a enxergar caminhos que antes nem sabia que existiam — e a escolher melhor entre eles.

Sergio Nogueira

Casado e pai de 3 filhos, formado em Administração de Empresas, construiu uma sólida carreira como profissional da área de Gestão de Pessoas, atuou e aprendeu muito, com as mudanças no mercado de trabalho e negócios, em diferentes segmentos, no Brasil como na América Latina. Liderou processos de mudanças culturais e desenvolvimento de pessoas, com destaque para estruturação e implementação de programas voltados para profissionais no início de carreira. Um inconformado com a situação da educação no país. quer mostrar como a educação transformou a sua vida e todas a oportunidades de desenvolvimento pessoal.

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